Recebi um vídeo da minha tia de 80 anos. Mais um daqueles clássicos do WhatsApp: voz robótica, música de suspense, imagens em preto e branco e uma mensagem apocalíptica sobre o fim do mundo causado pela inteligência artificial. Misturava religião, profecias, chips implantados e — claro — uma teoria da conspiração envolvendo a ONU, Elon Musk e um pastor da Flórida.
Vamos ser sinceros: Quem nunca está num grupo de família ou de amigos que vira uma central de vídeos “urgentes” sobre o caos iminente? Ri. Como sempre. Mas parei.
No fim do vídeo, surgiu uma frase que me fez pensar: “Em breve, as máquinas serão mais inteligentes do que nós.”
Foi nesse momento que me veio a lmebrança recente de um video que recebi do amigo e estrategista João Henrique Faria com uma provocação feita por Miguel Nicolelis, neurocientista brasileiro reconhecido mundialmente por suas pesquisas sobre o cérebro humano.
Ele costuma dizer:
“A inteligência artificial não existe. O que existe é a inteligência humana reproduzida por máquinas.”
E isso muda tudo.
O que é, afinal, inteligência?
Para Nicolelis, inteligência não é apenas responder rápido ou acertar uma equação. Envolve consciência, intuição, emoção, memória afetiva, ética, empatia — tudo o que faz de nós… humanos.
Ele é direto:
“Nenhuma máquina será capaz de desenvolver sentimentos ou consciência. Porque isso não se programa. Isso se vive.”
Mas os números continuam impressionando.
De acordo com a McKinsey & Company (2023), mais de 50% das empresas globais já utilizam IA em seus processos. A OpenAI revelou que cerca de 80% dos trabalhadores nos EUA terão parte de suas funções impactadas pela IA generativa nos próximos anos.
A IA já nos supera em velocidade, precisão, processamento de dados e escala de produção.
Mas… isso é inteligência ou só desempenho repetitivo com mais CPU?
O espelho que assusta
Talvez o verdadeiro pânico — e o apelo desses vídeos de WhatsApp — não seja medo da IA em si.
Mas do que ela revela sobre nós.
Ela escancara que muito do que fazemos pode ser automatizado. Que muitas das tarefas do nosso dia a dia são previsíveis, replicáveis, e… substituíveis.
É doloroso perceber que a IA pode redigir relatórios, compor trilhas sonoras, montar campanhas e até escrever colunas como esta — com mais rapidez que nós.
Mas ela não sabe por que está fazendo isso.
Ela não sente orgulho, ansiedade ou medo do fracasso.
Ela executa. Mas não vive.
Criar é sentir
Um algoritmo pode desenhar uma obra de arte.
Mas ele entende o silêncio no olhar de quem observa a pintura?
Pode escrever um poema. Mas ele já teve o coração partido?
Nicolelis, em seu livro “O Verdadeiro Criador de Tudo”, explica que o cérebro humano não é uma máquina de calcular.
É um sistema vivo, moldado por experiências, por emoções, por interações reais com o mundo e com o corpo.
“Reduzir o cérebro a um computador é como tentar simular o amor com uma planilha de Excel.”, ele provoca.
E aí, seremos superados?
Talvez a pergunta não seja essa.
Se perguntarmos “quem processa dados mais rápido?”, a IA ganha.
Mas se perguntarmos “quem entende o cansaço de uma mãe com um bebê no colo?”, o ser humano ainda é imbatível.
A inteligência artificial é uma ferramenta poderosa, sim.
Mas ela ainda é só isso: uma ferramenta.
Quem dá sentido a ela — somos nós.
Então, se você receber um vídeo da sua tia falando sobre o apocalipse da IA, fique tranquilo. O fim talvez não esteja tão próximo quanto ela imagina.
Mas o debate sobre quem somos e o que nos torna humanos… esse, sim, já começou. E talvez seja o mais importante de todos.
Para ler mais artigos como este, acesse: www.christianjauch.com.br/blogpolitico
E conheça também o coletivo de estrategistas políticos do qual faço parte: www.alcateiapolitica.com.br